segunda-feira, 23 de agosto de 2010

QUESTÕES MULTICULTURAIS PARA O ENSINO DE ARTE

UNIDADE I - POR QUE O PRAGMATISMO? IMAGINANDO NOVAS FORMAS DE ENSINO DA ARTE

                    RESUMO

                    Como perspectiva filosófica para abordar os desafios da educação artística atual e repensar uma renovação da mesma, o pragmatismo possui um caráter antinormativo e uma posição crítica ante a ditadura do método e sua nula pretensão de ser um modelo de explicação da realidade.
                 Uma perspectiva pragmatista nos força manter alerta diante do conhecimento já estabelecido e olhar sem medo para uma mudança de paradigmas. Dewey e Shusterman nos mostram que cada teoria da arte é uma resposta intelectual a determinadas condições socioculturais e às perplexidades diárias,nos convidando a soltar as amarrasconceituais e ir em busca da teoria da arte que corresponda ao nosso tempo. São várias as idéias que podem ser uma sentinela para se repensar o ensino da arte:
 1 - A impossibilidade da verdade
 2   O uso da dialética como forma de construção de conhecimento
 3 - A idéia de arte como experiência

A arte como experiência e relato aberto
                       Para começar, é preciso tirar a arte e suas obras da dimensão transcendental onde a tradição moderna as colocou - o que Dewey descreve como 'a concepção museística da arte" ou a "ideia esoterica de Belas Artes". Diante da tradiçaõ acadêmica, que considera os trabalhos artísticos como obras, os organiza em discursos. Acredito que seja mais adequado conceber as produções artísticas como relatos abertos à investigação criativa. Proponho que a abordagem da obra de arte seja feita, não como uma mensagem cifrada que podemos desvendar, mas como um resumo de experiências que podem ter infinitas interpretações, pois a essência e o valor da arte não estão na obra em si, senão na atividade experimental através da qual essa obra foi criada e é observada ou utilizada.
                        Conceber as obras de arte como relatos abertos pressupõe:
                         - Neutralizar seu carater elitista (Greene,2005), vivenciando-as como exemplos de experiências estéticas que alcançaram um grau de consenso social que as tornaram aceitas pela maioria.
                   - Experimentá-las em seu contexto hisórico e cultural, e não como elementos isolados,aceitando que seus significados podem mudar com a mudança dos hábitos e realidades que influenciam nossas experiências.Compartilho com Rorty "a idéia de que todas as práticas culturais, que na história tem pretendido ser resultado de uma evolução  da logica e da razão, podem ser repensadas como distinções entre conjuntos de práticas de existencia contigente ou estratégias empregadas dentro de tais práticas". Isto implica reescrever a própria história da arte,que deixaria de ser concebida como uma sucessão de momentos classificados por estilos, fechados e em uma sucessão de momentos classificados por estilos, fechados e em uma progressão lógica, para ser vista como uma sucessão de jogos metafóricos.
                         -Compreendê-las em termos de experiências de vida (Dewey,1934), tratando-as como tecidos de crenças e desejos. Assim, a obra de arte não faz mais do que desenvolver e acentuar o que é significamente valioso nas coisas que apreciamos diariamente.

                          Efetivamente, conceber as práticas artísticas a partir deste ponto de vista e, com ele, recuperar a união da experiência estética com outros processos vitais, também tem consequencias que afetam nossas concepções educativas. Para Dewey, cobrar essa continuidade entre a experiência estética e a vida, é uma forma de romper com a  "concepção fragmentada das belas artes". Com isso, segundo Shusterman, Dewwey não apenas destruia as dicotomias arte/ciência e arte/vida, como também insistia na continuidade fundamental de um conjunto de noções binárias e distinções genéricas tradicionais, cuja oposição e contraste amplamente assumidos estruturou grande parte da filosofia estética.

O debate sobre o campo de estudo: Artes Canônicas, Cultura Visual, Arte Popular
                                Um dos dilemas mais vivos do ensino da arte atual é a delimitação do campo de estudo. Certamente, buscar a continuidade da experiência estética com outros processos vitais traz como consequência que nos vejamos agradavelmente encorajados a ampliar nosso campo de estudo para todos os produtos artísticos geradores deste tipo de experiência, sejam eles das belas artes, das artes populares ou da chamada cultura visual.

O diálogo com a cultura visual
                                        Os estudos de cultura visual abriram o foco dos pesquisadores de arte para formas culturais muito mais vitais para a experiência estética da maioria da população contemporânea. Contudo, como disse Shusterman, " o projeto pragmatista para a estética não é abolir a instituição da arte, e sim transformá-la". E pretende fazer isso de duas maneiras: primeiro, como venho comentando,abrindo para a inclusão de outras formas de produção estética. Em segundo lugar, porque "precisamos de uma maior abertura para os meios  pelos quais a grande arte pode promover uma agenda ética e sóciopolitica progressista". O que faz de um estudo algo alternativo e distinto é olhar que projetamossobre essas formas culturais da experiência, e para esse olhar, nenhuma forma de arte é  insignificante. Não são os objetos de estudo que devem enfrentar-se, mas os modelos pedagogicos com os quais os abordamos. Antes, cultura visual e outras formas de cultura estética podem compartilhar o mesmo espaço educacional. O problema não esta no objeto de estudo, sendo no uso que fazemos dele.

Diálogo com a arte popular
                                             Projetos de integração entre a vida cotidiana e as expressões artísticas populares, como as de Picasso, Duchamp, os surrealistas ou os perfomáticos, não apenas  não permitiram que se fechasse a lacuna, como aprofundaram as diferenças entre os usuários das artes eruditas e populares. Shusternam disse que quando a arte erudita se opõe à arte popular, surge um elemento configurador de um novo cenário para o rompimento desta hegemonia cultural e a transformação da concepção de arte que dominou durante séculos. Temos assim, a arte popular completamente inserida no debate da estética contemporânea.
                                               
  
                           
                           
 
                

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